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Educação em tempos de fake news

Saber administrar quantidades cada vez maiores de informação e ter discernimento para separar o joio do trigo no enorme bazar de ideias digital são habilidades imprescindíveis no mundo atual e que todas as escolas deveriam ensinar

 

As fake news dominaram a cena mundial e ludibriaram um número incalculável de pessoas nos quatro cantos do planeta em 2017. O termo, cujo uso aumentou 365% em relação a 2016 e foi o mais emblemático do ano que passou, segundo o dicionário Collins, serve para designar uma informação falsa disseminada sob o verniz jornalístico com o objetivo de atender a interesses espúrios. Em suma, nada mais é do que uma bela de uma mentira com cara de notícia, uma verdadeira praga dos nossos tempos.

 

 

A prática não tem nada de nova: segundo Robert Darnton, professor emérito de Harvard, o primeiro caso de fake news remonta ao século 6, quando o historiador bizantino Procópio, com o intuito de desqualificar o imperador Justiniano, escreveu o livro Anedota, de veracidade duvidável. Mas a internet mudou tudo. Hoje, boatos são difundidos à velocidade da luz, de forma mais rápida, abrangente e impactante do que as verdades. No Twitter, as notícias falsas chegam 20 vezes mais rápido aos usuários e têm 70% mais chances de viralizar do que as reais, mostrou uma pesquisa do MIT publicada na revista Science. Os resultados também se aplicam à outras importantes redes sociais.

A lista de acusados de fomentar a epidemia global de desinformação é extensa. Nela figuram o Facebook, os algoritmos, os robôs, a polarização e, claro, Donald Trump, que mês passado foi ao Twitter se auto proclamar o criador da expressão e da tendência. Todos eles têm, certamente, bastante responsabilidade nessa história. No entanto, são os usuários, e não os bots e as redes sociais, os principais propagadores de notícias falsas, segundo a mesma pesquisa do MIT. Essa constatação lança luz sobre o grande problema, na minha opinião: a enorme falta de conexão entre a Educação e a realidade que vivemos.
O educador Enrique Dans escreveu recentemente na revista Forbes que criamos, em um curto período, um sistema que possibilita o acesso e o incentivo ao compartilhamento de uma infinidade de informações, ao mesmo tempo que renunciamos a qualquer responsabilidade de educar as pessoas em seu uso. A maioria das instituições de ensino está galáxias distante de oferecer uma Educação compatível com as necessidades deste século – e uma dessas necessidades é justamente saber administrar quantidades cada vez maiores de informação e separar o joio do trigo.

Até os anos 90, os livros didáticos eram os principais, se não únicos, recursos pedagógicos disponíveis e usados pela maioria quase absoluta das escolas. Isso não só contribuiu para nos tornar dependentes de uma só fonte de informação. Também minou grande parte da nossa capacidade de desenvolver critérios para interagir de maneira produtiva e responsável com o turbilhão de conteúdos a que somos expostos atualmente. Os jovens de hoje dispõem de centenas de milhares de fontes de conhecimento a mais do que as gerações passadas. Porém, falta-lhes também o senso crítico na análise e seleção do que leem e ouvem.

O problema é a maneira como os jovens se informam. Há algumas semanas, fiz uma pequena enquete com jovens de 20 a 30 anos. Ao perguntar como se informavam sobre os acontecimentos do Brasil e do mundo, 95% deles responderam que não leem jornais nem revistas, tanto nas versões impressas como digitais, e se informam somente pelas redes sociais. Minha pesquisa não foi nada científica, mas eu realmente acredito que esse jeito de se informar compromete a capacidade de discernimento.

Entre os mais novos, este é um hábito ainda mais recorrente, e os prejuízos são evidentes. Há cerca de um ano, um estudo realizado pela da Escola de Graduação em Educação de Stanford constatou que assombrosos 82% dos estudantes americanos entre 11 e 14 anos avaliados não sabiam diferenciar informações falsas e verdadeiras. “Muitas pessoas pressupõem que os mais jovens, por serem nativos digitais, são mais perceptivos em relação às coisas que leem na internet e nas redes sociais. Mas é justamente o contrário”, escreveu Sam Wineburg, um dos autores do estudo.

As informações que circulam no meio digital podem configurar uma  armadilha se optarmos apenas pelas ideias e opiniões com as quais concordamos. Por isso, é fundamental começar a desenvolver o pensamento crítico, a capacidade de duvidar e de fazer as perguntas certas. Isso precisa urgentemente ser ensinado nas escolas. Vejo também nessa questão um papel fundamental dos grandes veículos de comunicação, com comprovada credibilidade, em elaborar conteúdos editoriais mais profundos e com opiniões claras, independentemente de suas correntes ideológicas.

Fonte: Estadão, disponível em http://educacao.estadao.com.br/blogs/ana-maria-diniz/educacao-em-tempos-de-fake-news/

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