» Como promover o pensamento crítico (com 5 macacos e uma banana)

Pensamento Crítico 5 Monkeys Experiment

Como promover o pensamento crítico (com 5 macacos e uma banana)

Muitas pessoas, entre eles vários professores, se perguntam frequentemente como promover o pensamento crítico. Eles sabem que a avaliação de fontes é uma habilidade fundamental para qualquer indivíduo, sobretudo na época atual dos Fake News. Quero compartilhar aqui no Professor Inovador a minha visão a respeito dessa questão. E enfatizo já desde o início que é imprescindível as escolas dedicarem uma boa parte do currículo ao desenvolvimento de competências como avaliar fontes, principalmente na hora de citá-las em trabalhos.

Como professor de Teoria do Conhecimento (Theory of Knowledge) – matéria obrigatória para os diplomandos do bacharelado internacional IB (International Baccalaureate) – eu tento passar aos alunos a importância de questionar o tempo todo:

“Como nós sabemos o que é verdade?”

Em outras palavras: “Antes de acreditar em alguma coisa que você leu ou ouviu, verifique pessoalmente se aquilo realmente representa a verdade!”

Uma estratégia que funciona muito bem para promover o pensamento crítico é dar exemplos retirados da nossa própria vida, ou, como o próprio bacharelado internacional fala, uma situação real da vida (real-life situation). No meu caso, alguns anos atrás, li o bestseller Das Shaolin Prinzip” (ainda sem tradução para o português – “O Princípio Shaolin”, em tradução livre), do austríaco Bernhard Moestl.

O EXPERIMENTO DOS 5 MACACOS (“THE 5 MONKEYS EXPERIMENT’)

Nesse livro o autor descreve um experimento com cinco macacos que tentam pegar uma banana pendurada no teto. No meio da jaula, eles precisam subir uma escada se quiserem comer a banana, porém, cada vez que um dos macacos tenta subir, os cientistas jogam água na cara de todos os macacos. Resultado: depois de um certo tempo, sempre que um macaco tenta subir a escada, os outros macacos batem nele para evitar o banho d’água. Os cientistas então substituem um dos macacos e percebem que esse novo macaco, ao tentar subir a escada, é atacado pelos outros quatro. Aos poucos, os cientistas substituem todos os macacos e no final, restam na jaula apenas macacos que batem um no outro sem saber o porquê, já que nunca haviam levado o banho d’água dos cientistas. A moral da história seria: as pessoas muitas vezes não sabem porque tomam certas atitudes, apenas copiam o que os demais estão fazendo.

Na maioria das vezes, o experimento é descrito da seguinte forma (em inglês):

The 5 Monkeys Experiment - Pensamento Crítico

O EXPERIMENTO NUNCA ACONTECEU…

O autor do livro “Das Shaolin Prinzip” cita como fonte da pesquisa o psicólogo Gordon R. Stephenson. O problema é que… esse experimento nunca aconteceu! Quer dizer, o psicólogo americano tinha realizado um estudo com macacos em 1967, mas não da forma como foi descrito no livro. O que aconteceu então? De onde surgiu essa “lenda”? Em 1994, os autores Gary Hamel e C. K. Prahalad inventaram o experimento dos 5 macacos no livro “Competindo pelo Futuro” e usaram o psicólogo Stephenson como referência. E durante os últimos 24 anos, inúmeras pessoas compartilharam essa história, inclusive o autor austríaco do livro “Das Shaolin Prinzip” que eu li. Na época que li sobre o experimento, tinha achado muito interessante, uma vez que já havia presenciado situações semelhantes em minha vida. Compartilhei então a fábula dos macacos com outras pessoas, pensando que estava me baseando em um experimento científico. Apenas alguns anos atrás fiquei sabendo que este estudo nunca ocorreu.

IMPORTÂNCIA DE DUVIDAR DE QUALQUER FONTE

Expliquei aos alunos que eles têm que duvidar de qualquer fonte, mesmo que seja uma fonte aparentemente confiável, porque você quer acreditar que um livro que vende milhões de cópias em diferentes línguas tenha checado as fontes antes de publicá-lo. Enfatizei aos alunos com esse exemplo que ninguém está imune ao risco de confiar cegamente nas informações espalhadas pelo mundo. Não importa a idade, escolaridade ou o pensamento crítico já desenvolvido.

The 5 Monkeys Experiment

Vale a pena lembrar nesse contexto que uma ótima ferramenta para avaliar fontes é a tabela “OPVL-Chart”, do Bacharelado Internacional (veja gráfico abaixo, uma adaptação feita pela Concordian International School). Dando um exemplo da prática, podemos analisar um texto:

  • pela origem (O = Origin) – Exemplo de pergunta: Quem escreveu o texto?
  • pela finalidade (P = Purpose) – Pergunta: Trata-se de uma propaganda?
  • pelo valor (V = Value) – Pergunta: Sem o texto, as informações seriam perdidas?
  • pelas limitações (L = Limitations) – Pergunta: O texto é subjetivo?
Pensamento Crítico - OPVL Chart

Fonte: Concordian International School – OPVL Chart

PROMOVA UMA ENCENAÇÃO!

Na aula fiz questão de fazer uma encenação do experimento em questão. Colocamos uma escada no meio da sala de aula, penduramos bananas numa corda no datashow. Cinco alunos representaram os macacos do início do “experimento” e outros cinco seriam os macacos substitutos. Um aluno era o narrador da história e os alunos restantes eram todos cientistas que com um spray de água jogaram água na cara do macaco que tentava subir a escada.

pensamento crítico theory of knowledge

Material necessário (além de uma escada): bananas, corda, papel colorido (duas cores), spray (pulverizador) de água

Logo após o teatro, fiz três perguntas:

  1. Na sua opinião, como o experimento dos 5 macacos realmente aconteceu?
  2. Qual a versão mais confiável para você?
  3. Quais fontes você considerou para fundamentar seu ponto de vista?

Os alunos fizeram uma pesquisa em casa a respeito dessas três perguntas e se prepararam desta forma para um debate na aula seguinte. Quatro alunos sentaram na frente da classe, promovendo o debate e os outros alunos ficaram na plateia, se envolvendo ao fazer perguntas ou colocações.

OS ALUNOS PRECISAM TREINAR O PENSAMENTO CRÍTICO

O interessante era que os alunos chegaram em praticamente todas as conclusões e respostas às três perguntas de forma autônoma. Ou seja, eles tinham total capacidade de chegar às ideias-chave com o próprio raciocínio em relação a esse assunto.

O fato de ter feito a encenação deverá ajuda-los a lembrar dessa aula para o resto de suas vidas, porque está comprovado que quando vivenciamos algo com todos os sentidos, a chance de lembrar é muito maior. O que ajuda nesse sentido é que as bananas ainda estão penduradas no datashow. Só mudaram um pouco de cor… Desta forma, elas lembram simbolicamente os alunos que eles precisam duvidar sempre da veracidade de qualquer artigo, comentário, vídeo ou relato e que devem sempre checar as fontes, sobretudo quando quiserem usá-las em um trabalho.

Você também já compartilhou algum conteúdo que depois se mostrou que não era verdade? Compartilhe sua experiência aqui no Professor Inovador.

* Link para o documento original do experimento de G. R. Stephenson: https://pt.scribd.com/doc/73492989/Stephenson-1966-Cultural-Acquisition-of-a-Specific-Learned-Response-Among-Rhesus-Monkeys).

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